Encantos Quebrados

Por Wendell Pimenta

Dizem que, em certas noites de lua cheia, ouve-se por toda a floresta uma suave canção. Festejos que estão presentes de lua após lua, a espera da tão sonhada liberdade para os que foram esquecidos por Deus e escondidos da humanidade.

Uma canoa descia o rio; os periquitos regressavam pelo vermelho do céu indo em direção da grande samaumeira; os travessos tralhotos perseguiam sem parar uma pequena ariranha pelas margens de um rio com suas águas negras; a floresta toda saudava aquela noite de lua cheia.

A noite na floresta tem um som diferente durante estas noites e não se importa com o sono dos homens.

Entre as copas ou pelas moitas, de todas as partes eles chegavam. Uns soprados pelo ar, outros vinham por terra, alguns pelas águas e até montados em fachos de fogo, os tais que queriam aquela entrada fumegante. Uns possuíam os pés pra trás; outros uma perna só, alguns, rabos de peixe; outras, vestindo trapos com cabelos grossos cobrindo todo o rosto, sem esquecer os que tinham olhos na barriga ou quem sabe, até fogo no lugar da cabeça. É, eles eram assim, esquisitos.

De todas as chegadas, nenhuma se comparava à da mãe de todas aquelas estranhas criaturas. Se era noite de lua, entre o seu vulto azul, podia-se ver os mais claros raios de sol. Se houvesse chuva, as sete cores do arco-íris estariam presentes em seu manto. Se alguém visse seu vulto passando por entre as folhas caindo , via-se claramente flores desabrochando. Todos estavam felizes, apesar da tristeza que assolava seu coração. Ninguém sabia para quem, mas tinham a certeza de que logo o seu nome seria revelado e poderia ser para qualquer um. Você poderia imaginar que tipo de tristeza poderia quebrar o coração de uma mãe?

De repente, uma vaga-lume rasgou o céu e, logo atrás dele, emergindo da água, um rapaz com jeito moleque gritava:

– Volte aqui, sua pulga cintilante!

O pequeno vaga-lume voava em todas as direções, para fugir de seu feroz perseguidor. Mergulhou nas águas barrentas do rio numa inútil tentativa, pois o sagaz rapaz se transformara em boto dentro da água e continuava a persegui-lo. Até que uma voz serviu como freio:

– Parem!

O Barulho noturno da floresta não se ouvia mais, nem soluços de sapos e nem tão poucos suspiros de grilos.

– Ora! Pare com isso!

– Mas, mãe, ele me ofendeu!

– Ora, só porque eu falei a verdade! Que tu és um moleque irresponsável que sempre apronta com as ribeirinhas e que nunca vais crescer! Tu estás ficando velhinho, heim! Tá na hora de casar!

– Compromisso sério, eu?! Nem pensar! Não é, irmãzinha? – O rapaz perguntou ironicamente à moça sentada em cima de uma pedra verde com formato de sapo que confundia com sua calda e cabelos esverdeados. Ela nada disse. O fitou com apenas um cínico olhar. Abaixou a cabeça e continuou a moldar sapinhos como a pedra.

As águas começaram a borbulhar; era uma imensa cobra que surgia. Estafada, reclamava:

– Não aguento mais! Ai, minha costas! Por quantos dias mais terei que suportar toda uma cidade em cima delas? Tolos mortais! Vê se pode: sabem da minha existência e, mesmo assim, me negam. Acham que são capazes de criar histórias tão fantásticas sobre a gente. Mal sabem que a sua fantasia é a nossa realidade. Coitados! Chego até a ter dó. Mas, algum dia, olha que eu me enfezo e afundo tudo.

Havia perto da cobra dois garotos,  um com uma perna só e o outro, com os pés pra trás, ambos disseram:

– Cobrinha, querida irmãzinha! Não gostarias de uma massagem em tuas tão doloridas costinhas?

A cobra grande, estranhando a gentileza, sabia que era mais uma traquinagem dos dois. Nem bem abriu a boca para recusar a tal massagem, levou uma bolada de lama no meio da cara, e outras mais foram chegando. Então, veja só, como uma arara baleada, não parava mais de dar sermões nos dois pestinhas.

Com toda aquela confusão, a noite ia cada vez mais despertando. Chegava a hora de anunciar quem seria o escolhido. A senhora vagava triste pela floresta. Então, O céu começou a jogar estrelas, e três caíram em seu coração. As outras formaram um caminho em direção à festa. Chegara a hora. Muda, ela retornou à festa.

Você Lembra daqueles sapinhos verdes que a moça moldava sentada na pedra? Eles possuem um nome muito esquisito, são chamados de muiraquitãs, e são talismãs mágicos. Dizem que eles só funcionam quando são dados de presente.

Naquela noite, foram moldados apenas três, os quais foram retirados da água e jogados ao ar pela mulher que chamavam de mãe. O primeiro, ficou flutuando em seu lado esquerdo, perto do menino boto; o segundo, flutuava no seu lado direito, onde a mulher peixe penteava seus logos cabelos verdes; o terceiro e último, à sua frente, onde descansava a enorme cobra.

Os amuletos voaram em direção a cada um e fincando em seus peitos. Espantados, sabiam que o seu nome seria revelado para um deles.

A festa ainda não havia acabado, entretanto, o menino boto estava sentado em uma imensa raiz sobres águas, iluminado pela luz pálida do luar. Observando as raízes, achou parecidas com uma imensa teia esperando a sua presa.

Correndo pela várzea, uma figura estranha com o corpo coberto de lama ria contagiantemente. O boto pulou dentro da água e a fitou com olhos. Era uma bela moça. Desenhada em formas nunca vistas por ele em suas artimanhas por aí. Abobalhado, espantou-se com um sentimento forte e estúpido que lhe invadiu os sentidos, como se quisesse juntar os trapos e passar o resto da vida com ela. Se amarrar definitivamente, sabe como é, né? Mas Ficar azarando as ribeirinhas era a sua essência e muito mais divertido! Se sentiu perdido, pois havia algo de especial naquela garota. Então, rapidamente, ela pulou em cima de uma das raízes. Todo faceiro, não conseguia esconder sua timidez, jogou um pouco de água com seu rabo em cima dela, limpando a lama que ofuscava sua beleza. Sua pele surgia suave como asas de borboletas deixando o casulo. Suas formas mais acentuadas revelaram uma mulher encantadora. 

Definitivamente, ele já nem se importava mais em se amarrar. Onde já se viu, casamento de Boto! Com cara de bobo começou então a encantá-la, convidando-a para entrar na água. Todo a magia foi quebrada, quando a risada cínica e estridente de uma Iara o atingiu:

– Ora, irmãozinho! Tão atrevido e bobo!

Ela limpava os restos de lama que ficaram presos em suas escamas quando o Boto cheio de ódio desapareceu nas águas barrentas do rio.

Lá pro meio da noite, toda satisfeita com a cara de bobo do boto, cantava distraída quando, por entre as árvores que rodeavam o riacho, percebeu que alguém a observava. Era um índio que surgia sinuosamente como uma onça parda, exalando um cheiro silvestre que a encantava. Como vocês bem sabem, o feitiço de uma Iara é de levar seu encantado para o fundo do rio.

Orgulhosa, ela já sentia o seu poder envolvendo o pobre rapaz. Mas para a sua surpresa, ao chegar às margens do riacho, quando os olhos dele fitaram os dela revelando um arpão em punho, saltando pra cima dela, a deixou em pânico:

Encantando o seu próprio irmão, pequena mulher peixe?

Era o Boto que ia à forra, enfiando o arpão na areia do riacho, mergulhou deixando apenas a sua risada de vingança perturbando a Iara.

O sol já ameaçava a nascer quando a cobra rasgou as águas do rio, regressando para debaixo da cidade.

Em seu caminho, um jovem pescador dormia em sua canoa. Um presa prefeita, à deriva na fina névoa da manhã. Aquele imensa criatura foi cercando a canoa, preparando-se para o bote. Erguendo lentamente a cabeça, seu olhar mortal foi a primeira coisa que o pescador viu.  Uma intensa bruma começou a se formar e ferozmente, com o corpo todo fora da água, a cobra levantou a canoa. O jovem, aterrorizado, ficou paralisado. As brumas colocaram um punhal em suas mãos. Movido por um instinto adormecido, ele cravou o punhal na cabeça da cobra que com um urro feroz acordou os animais que dormiam a milhas de distancia. Os macacos, em pulos, gritavam juntos com as araras, maracanãs e papagaios, que voavam dando de encontro uns com os outros. A onça bramia assustada. Cutias, mãos-pelada, pacas e capivaras corriam perdidas pela mata. A preguiça apavorada caia de galho em galho. De repente, tudo ficou em silêncio.

O pescador respirava ofegante. As brumas desapareceram junto com a grande cobra e à sua frente, lá na praia, um corpo estava desacordado na areia. Pequenas ondas levaram a canoa à praia. Ao ver que era uma jovem, ele pulou em direção a ela. Colocando a cabeça dela em seus braços, viu que era uma índia. Sentiu a sua leve respiração, sim, estava viva. Ao abrir os olhos, ele percebera que era os mesmos olhos que minutos atrás eram a própria morte. Lembrou da lenda da princesa índia que fora amaldiçoada pela inveja de uma feiticeira.

Das brumas restara apenas uma lágrima. Seu nome havia sido revelado a mais um mito e morrido com ele. Na verdade, um encanto quebrado para um humano é a sua redenção, mas para aquele mundo, é uma grande perda. Vocês podem imaginar a morte de um mito? Nem tentem! Pois sabe aquela cidade? É, ela continua lá e parece que não vai afundar tão cedo.

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